terça-feira, 24 de dezembro de 2013

El Rei D. Dinis - senhor de muitos talentos

De acordo com alguns historiadores o reinado de D. Dinis foi o mais representativo da primeira dinastia.
Foi este Rei uma personagem riquíssima pois, segundo Barrilaro Ruas, concebeu e pôs em prática uma política de grandeza nacional.
De acordo com o referido historiador os talentos de D. Dinis eram muito diversificados: excelente administrador, bom chefe militar e grande diplomata. 
No seu reinado organizou-se a Marinha de Guerra, estimulou-se a Marinha Mercante e a Agricultura, protegeram-se os Municípios, reformou-se a nobreza e foram moderados os poderes do alto clero.
Foi no seu tempo também que foi criada em Portugal a primeira Universidade. Inicialmente foi instituído em Lisboa um Estudo Geral que em 9 de Agosto de 1290 se tornou a primeira Universidade Portuguesa com a concordância do Papa Nicolau IV.
Até 1308 essa Universidade manteve-se em Lisboa, data em que o monarca decidiu transferi-la para Coimbra, cidade mais propícia ao labor intelectual. Nela eram ministrados cursos superiores de Letras, de Direito Canónico e Civil e de Medicina. 
D. Dinis foi também um homem muito culto, um dos maiores poetas do seu tempo. 
Escreveu diversas cantigas de amor, de amigo e "saborosas" cantigas de maldizer. Até à actualidade chegaram-nos da sua autoria 138 cantigas sendo 76 cantigas de amor, 52 de amigo e 10 de maldizer. 
Na formação deste nosso Rei, quando jovem, tiveram influência os seus professores Domingos Jardo e Aymeric d'Ehrard, este profundo conhecedor e provavelmente cultor da poesia provençal, tendo possivelmente encaminhado D. Dinis para a criação poética na sua juventude. 
Mas foi Lourenço Gonçalves Magro, trineto de Egas Moniz quem D. Afonso III,   seu pai, escolheu para o educar na sua infância.
Ao descendente de Egas Moniz o nosso Rei D. Dinis ficou sempre muito reconhecido pela dedicação que teve na sua educação, tendo-o recompensado com a doação de Vila de Arêga - hoje Caldas de Aregos - situada junto ao Rio Douro, nas proximidades de Resende. A respeito dessa recompensa diz Frei António Brandão o seguinte: 
"Deu-lhe D. Dinis esta vila por ter sido seu aio. E ainda que, anos adiante, fizera geral revogação das mercês que fizera nos princípios do seu reinado, conservou ,todavia, a Lourenço Gonçalves Magro o referido senhorio de Arêga, como consta duma ratificação feita em 9 de Novembro de 1286 da seguinte forma" : 
"Como eu desse a Lourenço Magro, meu aio por criança e por serviços que me fez, em doaçom a Vila de Arêga e eu revogasse todas as doações, não foi entam minha inteçom, nem hé, que revogue essa doaçom. Tudo merece um bom aio e mestre. "

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

DONA JOANA – INFANTA DE PORTUGAL E RAINHA DE CASTELA



O casamento de Henrique IV de Castela e Leão com Blanca de Navarra foi considerado nulo ao fim de três anos e meio. Blanca, durante esse período de tempo, nunca engravidou e supõe-se que, a quando do seu divórcio, continuava virgem, isto é se encontrava tal qual como no dia do seu casamento.

O documento final que os juízes eclesiásticos entregaram ao procurador de Blanca, para que o assinasse ou rejeitasse, estabelecia critérios então aceites pela Igreja Católica para sentenciar a nulidade e separação de um casal por causa da impotência do cônjuge masculino. A sentença explicava que essa impotência não tinha uma causa física mas que era resultado de um malefício. Algo que, segundo os juízes, só tinha acontecido com Blanca, uma vez que na sentença se afirmava que Henrique IV pudera ter relações com outras mulheres.

Em 1453 a Igreja Católica aceitava que a impotência por malefício era uma das causas mais claras para anular um casamento. Por isso foi anulada, sem grandes entraves, a união de Henrique de Castela com Blanca de Navarra, embora os rumores que corriam fossem de que se não conhecia ao Rei ligação alguma com qualquer outra mulher nem a existência de nenhum filho bastardo.

Por outro lado eram propaladas considerações nada edificantes sobre a índole sexual de Henrique e dos seus gostos particulares que o levava a escolher validos de baixa moral com quem dormia. Depois do divórcio foi considerada pelos conselheiros do Rei a necessidade de se encontrar uma infanta pertencente a uma das casas reais existentes com vista a poderem ser iniciados os primeiros contactos no sentido de ser negociado um segundo casamento de Henrique IV de Castela. A solução escolhida foi Joana de Portugal, filha do já falecido Rei D.Duarte e irmã do então reinante Afonso V, o Africano, solução que veio a concretizar-se em 1455. Com esse casamento seriam sanadas algumas disputas entre Portugal e Castela, além de poderem ser assinados tratados de amizade e de entreajuda no sentido dos dois reinos combaterem juntos os últimos redutos mouros existentes na Península Ibérica como Granada e Córdova. Além disso a Infanta Dona Joana era muito jovem, pois tinha apenas dezasseis anos de idade, e extraordinariamente bela e graciosa, predicados que poderiam ser estimulantes para Henrique IV motivando o interesse sexual dele por uma parceira feminina.

A ligação entre Henrique de Castela e Joana de Portugal verificou-se, como já foi referido em 1455, mas o seu casamento não foi consumado. O Rei em nada alterou os seus hábitos de índole sexual e a sua impotência prevaleceu, E à medida que os anos passavam as pressões da nobreza e do povo aumentavam continuadamente no sentido do casal real gerar um herdeiro ao trono.

Ao fim de sete anos de casados, não podendo o Rei suportar mais essas pressões, resolveu, aconselhado naturalmente pelos seus mais próximos colaboradores, consultar um físico judeu de reconhecida sabedoria. Ordenou o médico que fosse construída uma cana de ouro que a Rainha introduziu na “matriz”. Depois do Rei ser masturbado foi vertido o seu sémen nessa cana que correu para dentro das entranhas de Dona Joana. A esse respeito o Papa Pio II na sua obra intitulada Comentarii escreve textualmente :

“Disseram-me que foi fecundada sem perder a virgindade. Houve quem afirmasse que o sémen derramado na entrada tinha penetrado nos lugares mais recônditos”.

Mas o que constou foi que o esperma do Rei era aquoso e estéril não tendo produzido a fecundação da Rainha como foi previsto pelo físico judeu.

E que em vistas disso Henrique IV não teve outra alternativa senão proporcionar ao seu favorito na altura (Beltran de las Cuevas) um ajuntamento com Dona Joana no leito dela.

E foi desse ajuntamento, ao que parece, que resultou a gravidez de Joana, ao fim de tantos anos de casada e a perda definitiva da sua virgindade. Dessa gravidez nasceu uma menina que o povo sempre considerou como sendo filha de Beltran de las Cuevas tendo-a por isso cognominado de Beltraneja, embora Henrique IV por duas vezes ( em 1462 e 1470) a tivesse considerado sua legítima herdeira. Possivelmente, como compensação, em resultado das humilhações que tinha sofrido, Joana passa a ter, a partir do nascimento da filha, uma atitude provocatória e leviana.

Como era uma mulher jovem e extraordinariamente bela foi muito requestada, sendo exposta a muitas tentações. A sua vida passou a ser moralmente reprovável, envolvida como parece ter estado em diversos casos passionais. Prestando atenção às conversas amorosas de um sobrinho do arcebispo de Sevilha de nome Pedro de Castilha, o Moço, deixa-se seduzir por ele e enlear numa ardente paixão que durante algum tempo consegue manter secreta. Mas aos vinte e nove anos de idade engravida de Pedro de Castilha, o Moço, dez anos mais novo, do qual tem pelo menos dois filhos. Filhos que secretamente, são entregues ao cuidado duma tia de D.Pedro, prioresa do Mosteiro de Santo Domingo el Real de Toledo, onde foram criados e educados os dois rapazes. D.Henrique IV morre em 1474 depois de mais de 20 anos de reinado. A Rainha sobrevive-lhe, tendo lutado, em vão, pelos direitos da filha, apoiada por D.Afonso V de Portugal seu irmão.

Mas quem sucedeu a Henrique IV de Castela e Leão foi a irmã deste Rei, Isabel a Católica que casou com D.Fernando de Aragão.


Publicado por Fernando Magro

Texto redigido de acordo com as normas do antigo acordo ortográfico dec.lei 35228/45

terça-feira, 24 de julho de 2012

D.João II, o Príncipe Perfeito

D.João II foi filho de D. Afonso V, o Africano.
Em 1471 acompanhou o pai na expedição que tomou Arzila e Tânger aos Mouros e é nessa altura por ele armado cavaleiro, sendo-lhe entregue a condução dos assuntos relativos aos descobrimentos.
D.Afonso V, seu pai, segundo o cronista Rui de Pina "foy Pryncepe de muy graciosa presença, grande humanidade e doce conversação, mas foi em tanto extremo que pera Rey superior não foy muyto de louvar, porque com grande familiaridade que de sy, contra sua gravydade e estado real, muyto dava além de muytas  vezes não guardavam aquela reverência e acatamento que devyam, tomavam aynda atrevymento de lhe requerer e elle vergonha de lhe nom outorgar muytas e mayores cousas de que os mercimentos, nem onestidade nem o acrescentamento de património real requeriam, segundo todo o Rey e Prýncepe lhe obrigava". 
Em 1481 D. João II, por morte de D.Afonso V é aclamado Rei em Sintra.
Seu Pai, muito amado pelos cavaleiros e fidalgos, tinha distribuído entre eles terras e riquezas, sem se lembrar do seu filho herdeiro.
Quando tomou conta do Governo do País consta que D. João II teria declarado: "Meu Pai deixou-me Rei somente das estradas de Portugal".
Esforça-se por isso em obter a centralização do poder e entra em conflito com a nobreza, principalmente com a mais ligada à família Real. Em resultado disso alguns conspiram contra a sua vida e outros têm entendimentos secretos com os Reis de Castela no sentido de urdir um plano para contaminar a política ultramarina do soberano.
O Duque de Bragança  de quem se descobriu correspondência com sua prima, a Rainha D.Isabel de Castela, muito comprometedora, foi preso, julgado e sentenciado a ser decapitado em Évora no ano de 1488, tendo os seus principais cúmplices sido executados uns e banidos de Portugal os outros.
E no ano seguinte, explodiu uma conspiração concentrada em volta de D. Diogo, Duque de Viseu, primo co-irmão do Rei. Essa conspiração tinha em vista a captura e possível morte do Rei, seguida da coroação do Duque de Viseu.
A trama foi descoberta e D. Diogo foi morto, possivelmente pelo próprio Rei.
Depois destes acontecimentos deixou de haver problemas com os grandes fidalgos que dai em diante passaram a ser inofensivos e até obedientes ao trono.
D. João II pode então dedicar-se à grandiosa expansão marítima. Mandou erguer em S.João da Mina, no Golfo da Guiné uma fortaleza.
À volta dela logo cresceu uma vila - a mais antiga feitoria de brancos estabelecida naquela costa - aonde iam as tribos do interior transaccionar ouro com os portugueses.
Diogo Cão descobriu o grande rio Congo, chamado assim pelos nativos do Zaire.
E em 1488 Bartolomeu Dias dobrou o Cabo das Tormentas, depois chamado Cabo da Boa Esperança, grande passo para se atingir a Índia, por via marítima.
D.João II depois de dobrado o Cabo da Boa Esperança começou a preparar a grande viagem que deveria ser realizada por navios pesados - naus de alto bordo, com velas quadradas, próprias para aguentar as tempestades do Oceano meridional.
Os navios seriam todos novos, especialmente construídos pelos melhores artífices e com as melhores madeiras para a viagem por mar até à Índia.
Mas, entretanto o Rei adoece gravemente o que o levou a fazer testamento, nomeando seu primo, o Duque de Beja, D. Manuel por herdeiro, uma vez que o seu único filho de nome Afonso havia falecido quatro anos antes num acidente a cavalo, quando galopava com um jovem companheiro nas margens do rio Tejo, em Santarém.
Em 1494 resolveu viajar até ao Algarve procurando a cura dos seus males nas águas termais de Monchique.
Sentindo algumas melhoras algum tempo depois resolveu ir caçar nos bosques húmidos da Serra num dia frio e chuvoso no Outono de 1494.
Teve em resultado disso uma severa recaída. Logo que lhe foi possível montar a cavalo o Rei resolveu descer da Serra em direcção a Alvor em 24 de Outubro de 1494 aonde chegou muito enfraquecido.
Alvor nesse tempo, era uma pequena povoação de pescadores junto à baía de Lagos. Numa elevação fronteira ao mar havia um pequeno castelo.
Foi recolher-se a casa do Alcaide desse castelo e lá morreu no referido dia 24 de Outubro de 1494.
Os seus acompanhantes e o próprio Alcaide consideraram não ter Alvor condições para fazer as exéquias mortais ao Rei de Portugal dada a modéstia das instalações existentes nesse tempo no local.
Por isso resolveram levar o caixão contendo o seu corpo para a Sé de Silves.
Durante a noite, à luz das tochas, debaixo de mortalha de veludo negro, seguido pela gente de Alvor que quebrava o silêncio nocturno com os seus gemidos, foi levado para Silves e o seu cadáver depositado na Sé em frente ao altar.
Quatro anos mais tarde D. Manuel ordenou que fosse levado o seu corpo para junto dos seus antepassados no mosteiro da Batalha.

sábado, 24 de dezembro de 2011

D. Leonor - Marquesa de Alorna

Quando há alguns anos atrás tive conhecimento do namoro do meu sobrinho Tiago Magro com uma jovem da Casa de Alorna resolvi fazer uma leitura demorada e atenta das poesias da D. Leonor tendo ficado seduzido pela sua figura e pela sua produção literária.
Com o pseudónimo de Alcipe, D. Leonor escreveu poesia desde muito nova. É autora de seis volumes de Obras Poéticas tendo traduzido vários autores entre os quais Lamartine.
Fiquei deslumbrado pela sua cultura e emocionado com a história da sua vida.
O meu entusiasmo pela Marquesa foi tão grande que pensei mesmo escrever um livro de ficção sobre ela respeitando a sua biografia. Iniciei por isso a recolha de alguns textos publicados sobre D. Leonor e procurei interessar na realização do livro a colaboração de uma minha sobrinha professora da faculdade de Letras da Universidade de Évora.
D. Leonor além de uma grande poetisa percussora do romantismo no nosso país, foi a primeira mulher a ter lugar em todas as antologias portuguesas. Era detentora de uma grande inteligência e cultura sendo também dotada de uma grande beleza física. A história da sua vida é verdadeiramente emocionante. Nasceu em 1750 filha do Marquês de Alorna e neta do Marquês de Távora, uma vez que sua mãe era filha deste último fidalgo.
Viveu durante 26 anos no reinado de D. José, e ao que consta este nosso Rei teve um caso amoroso com a esposa de um seu tio materno, filho do Marquês de Távora. Este procurando reparar a honra da sua família teria preparado um atentado ao Rei disparando ou mandando disparar sobre D. José, quando ele regressava no seu coche de uma visita nocturna à sua nora. O Rei sofreu em resultado desse atentado ferimentos ligeiros, mas o Marquês de Pombal, primeiro ministro do reino e inimigo dos Távoras mandou-os prender sendo posteriormente degolados e os seus cadáveres queimados.
Quanto ao Marquês da Alorna por ter cedido uma arma aos Távoras e não ter alertado o Rei da preparação do atentado foi mandando encurralar na prisão das Junqueira. A sua esposa e as suas duas filhas: D.Leonor com oito anos e D. Maria com seis anos de idade foram internadas no Convento de Chelas e o irmão destas D. Pedro de quatro anos, dada a sua tenra idade foi entregue aos cuidados da Corte.
Foi no Convento de Chelas que D. Leonor evidenciou interesse pela poesia. Os seus primeiros versos chegaram ao conhecimento do médico do convento que era amigo do poeta Filinto Elísio que também os leu e apelidou a jovem poetisa de Alcipe. No Convento de Chelas onde permaneceu dezoito anos lê D'Alembert, Rousseau e as grandes figuras do passado: Fenelom, Bossuet, Racine, Corneille, etc. Lê ainda Voltaire e Buffon.
Só com a morte de D. José e com o afastamento do Marquês de Pombal é que termina ao fim de dezoito anos, a prisão de seu pai Marquês de Alorna e as clausuras de sua mãe, dela e de sua irmã.
A poetisa tinha já 26 anos de idade.
Ainda no convento em que a clausura não era rigorosa, ocorreram visitas ao locutório de vários seus admiradores. Entre os seus pretendentes há um jovem conde, oficial hanoveriano que havia sido trazido para Portugal pelo Conde de Lippe, seu parente, quando este foi incumbido da reforma do Exército Português. Já no reinado de D. Maria I, D. Leonor casa com o referido oficial, que se naturaliza  português e consegue o lugar de embaixador de Portugal em Viena de Áustria.
Aí Leonor vive durante doze anos o que lhe permitiu aprender a língua alemã e a familiar-se com os poetas do nascente romantismo, traduzindo Oberon de Wieland.
A morte do marido em 1793 deixa-a com cinco filhos menores aos 43 anos de idade.
Regressa a Portugal refugiando-se em Almeirim, onde os Marqueses da Alorna possuíam propriedades e uma casa senhorial ali passando alguns anos a criar e educar os seus filhos. Depois regressa a Lisboa. Funda mesmo uma associação literária a que deu o nome de Sociedade da Rosa. Os seus salões são frequentados pelos intelectuais da época. Mas o Intendente Pina Manique, no reinado de D. Maria, teme as reuniões desses intelectuais e as suas ideias revolucionárias vindas de França. Receia mesmo que a Sociedade da Rosa tenha fins maçónicos.
Persegue por isso D. Leonor e consegue deportá-la para Inglaterra. Na capital inglesa passa anos de muitas dificuldades económicas. Mas em Londres familiariza-se com a língua inglesa e lê grandes autores britânicos da época e traduz Pope e Gray.
Em 1814 regressa a Portugal. Tem 64 anos de idade. O seu irmão D. Pedro, que pela morte do seu pai, herdara o marquesado, tinha falecido no ano anterior (1813). Ele havia sido oficial, fazendo parte das tropas de Napoleão Bonaparte, tendo combatido na Rússia. Nessa altura já lhe havia sido retirado o título de Marquês, por haver suspeitas de que teria combatido ao lado dos franceses contra os portugueses aquando das invasões napoleónicas.
D. Leonor conseguiu provar que o seu irmão D. Pedro recusou sempre fazer parte das tropas que invadiram Portugal e nunca lutou contra os portugueses.
Conseguiu por isso reabilitar a memória do seu irmão sendo-lhe restituída a Casa de Alorna e o título de marquesa, sucedendo a D. Pedro por ser a sua irmã mais velha.
Deste último período da sua vida os intelectuais do seu tempo falam dela com muito respeito e imensa saudade. Alexandre Herculano, que no início da sua carreira literária frequentou assiduamente os salões da famosa Alcipe tece-lhe grandes elogios.
O romantismo português terá sido forjado em larga medida nos salões de D. Leonor.
No tempo em que tive a ideia de escrever a sua biografia ficcionada nada havia sido escrito sobre a vida dela. Durante o corrente ano de 2011 surgiram, porém,  duas obras inspiradas na sua vida:
- Marquesa de Alorna de Maria João Lopo de Caravalho;
- As Luzes de Leonor, a Marquesa de Alorna, com o subtítulo: uma sedutora de anjos, poetas e heróis de Maria Teresa Horta.
Não sendo anjo nem herói talvez por ser um fazedor de versos também fiquei seduzido pelas luzes da Leonor.

Texto redigido de acordo com as normas do antigo Acordo Ortográfico (Decreto lei 35.228/45).

sábado, 19 de novembro de 2011

José Sócrates, o filosófo

É difícil de acreditar que aqueles que governaram Portugal nos últimos anos se não tenham apercebido do caminho para a ruína que corria o país com a orientação que davam aos negócios do Estado.
Viveu-se em Portugal nos últimos quinze anos de um modo intolerável, numa verdadeira loucura:
- o governo a gastar mais do que se produzia;
- algumas Câmaras Municipais apostadas em ver qual delas era capaz de se endividar mais;
- e os portugueses, em geral, a adquirir tudo a crédito.
Um contínuo do Organismo do Estado onde eu trabalhara teve uma contenda com uma jovem engenheira que também estava lá colocada, por causa de um lugar de estacionamento automóvel no parque privativo dos serviços. A engenheira, por ser engenheira, achava que tinha mais direito ao lugar que o contínuo e este, sendo funcionário do mesmo organismo teria considerado que o seu direito ao lugar era o mesmo que o dela.
Palavra puxa palavra os ânimos exaltaram-se e a engenheira deu um empurrão ao contínuo. Este, aguentando-se, ripostou também com um empurrão na engenheira. Ela mais frágil, foi se abaixo das pernas e caiu redonda no chão do parque do estacionamento. Partiu os óculos e sofreu algumas esquimoses na cara e nos braços.
Quando me relataram este caso admirei-me por o contínuo ter automóvel próprio dado o seu baixo ordenado, mas logo me informaram que não tinha um só, mas possuía dois carros.
A mulher que vendia pão fazia a distribuição do mesmo noutro automóvel.
A minha empregada doméstica gaba-se que as suas máquinas de lavar a roupa e a louça são melhores que as minhas e o frigorífico também. Tal como fez o contínuo com os carros, ela adquiriu tudo a crédito.
Nos últimos anos o país estava a tornar-se numa terra de proprietários hipotecados.
Quem queria casar ou mudar de residência comprava casa com uma hipoteca a satisfazer entre vinte a trinta anos. Os bancos faziam uma propaganda aliciante no sentido de facultarem dinheiro com grande facilidade sem procurarem saber se os seus futuros credores assegurariam o reembolso das importâncias postas à sua disposição.
Enquanto isto se passava por todo o lado alguns lúcidos observadores iam avisando repetidamente que os portugueses estavam a seguir um caminho que só poderia desembocar no endividamento e na falência.
Nos últimos anos a evidência deste fim trágico era cada vez maior...
Porém do primeiro ministro de Portugal, engenheiro técnico José Sócrates, não surgiam quaisquer medidas.
Passava os dias a filosofar, afastado da realidade existente. Para ele tudo estava controlado e o caminho a seguir não poderia ser outro senão o de investir, investir mesmo em obras não rentáveis, construindo mais auto-estradas, um novo aeroporto internacional em Lisboa, uma terceira ponte sobre o rio Tejo e a ligação a Espanha e à Europa pelo comboio de alta velocidade.
Enchia o peito de ar e, filosofando, prometia continuar a sua política seguindo em frente, sempre em frente a caminho do precipício. Quanto ao capital necessário para levar a efeito essas referidas grandes obras contava com a contribuição da Europa e com empréstimos de bancos portugueses e estrangeiros.
O enorme défice das contas do estado e o endividamento do país não o assustava. Enchia o peito de ar e filosofava afirmando que essas grandes obras dariam trabalho a muita gente e criariam riqueza, além de aproximar Portugal dos países mais desenvolvidos da Europa e do Mundo.
A sua predisposição para filosofar foi no que deu. Estamos agora a pagar os seus desvarios.
Quanto ao engenheiro técnico Sócrates, ao que julgo saber, deixou Portugal e há quem diga que ele continua a filosofar por terras de França. Que Deus o conserve muito tempo por lá.

sábado, 17 de setembro de 2011

João Torto,o homem voador

Na esmagadora maioria são homens os autores das crónicas que nos relatam acontecimentos passados ao longo da nossa história.
Houve, porém, também algumas (poucas) mulheres que nos dão testemunho de factos que presenciaram, de que tiveram conhecimento ou que simplesmente inventaram.
Uma delas foi a filha bastarda de um fidalgo da casa de S. Miguel de Fornos de nome D. Maria Glória, que assinou as suas crónicas com o pseudónimo de Ana Gomes.
Desta cronista visiense  há o relato da incrível aventura de um Ícaro de nome João Torto que em 1540 com a ajuda de duas asas articuladas ligadas aos seus braços, voou desde a Torre da Sé, da Catedral de Viseu, até à Capela de São Luís que se situava nas proximidades da ribeira ( Rio Pavia).
O padre Henrique Cid, falecido em 1910, autor de uma colectânea com o título de "Efemérides", descobriu nos Arquivos Municipais de Viseu esta interessantíssima história da referida cronista que passo de imediato a transcrever: "Em Junho de 1540, João de Almeida Torto, enfermeiro do hospital, e mestre das primeiras letras, mandou deitar pela cidade o seguinte pregão:
Saibam todos os senhores habitantes desta cidade, que não terminará este mês sem se ver a maior das maravilhas, a qual vem a ser um homem desta cidade voar, com asas feitiças, da Torre da Sé ao Campo de São Mateus , pelo que responde por sua pessoa e bens- João de Almeida Torto."
Esta notícia alvoroçou a cidade toda e cada qual dos seus habitantes esperava com ansiedade a ocasião de ver tão estupenda maravilha. A pedido da mulher, impôs-lhe (ao Torto) o Juiz do Povo a obrigação de fazer testamento em benefício dela, pois, como filhos não havia, era para os irmãos se tal não fizesse. A pobre mulherzinha tanto lastimava aquela doidice do marido que muita gente comoveu, mas todos tinham no pobre louco confiança no bom êxito da empresa.
Segundo pregão anunciou o dia 20 de Junho pelas 5 horas da manhã.
Na véspera, algumas pessoas acompanhadas do Juiz do Povo, dirigiram-se a casa do inventor e pediram-lhe se lhes mostrava o seu maravilhoso invento. O bom homem não só mostrou o invento, mas deu categóricas explicações do modo de obrar e do fim que tinha cada uma das peças.
As asas, eram de pano forte e duplas, isto é, eram duas de cada lado, sendo mais pequenas as inferiores e semelhantes a uma asa de ave. Estas duas asas estavam ligadas por três argolas de ferro, enchumaçadas em trapos e era por elas que o Almeida devia meter os braços. Além disso estavam ligadas, por a parte superior, por duas dobradiças de ferro e pela parte inferior por um cinto de cabedal. Os sapatos eram de solas tríplices, havendo entre elas espaços para atenuar a queda. Tinha também um barrete do feitio de uma cabeça de pássaro, com um bico enorme e aberto.
O inventor levou a sua complacência a vestir o aparelho e a elevar-se alguns pés acima do solo e a dar uma volta pelo quintal.
No dia seguinte, ainda a aurora não tinha despontado e já o Campo de São Mateus estava coberto de espectadores que vinham dos povos e quintas circunvizinhas e o Adro cheio de gente da cidade.
Às quatro horas era enorme a multidão de povo. O novo Ícaro subiu à Torre da Sé e para lá guindou por uma corda o seu aparelho, sendo neste serviço coadjuvado por algumas pessoas. A mulher estava à porta da Capela de Nossa Senhora dos Remédios, contemplando tristemente as manobras. O homem, às cinco horas, precisamente, já preparado, saltou da Torre e fazendo manobrar as asas descreveu demoradamente uma linha inclinada, tomando por mira a capela de São Mateus.
Foi bem até certo ponto, mas uma das asas deixou de trabalhar e o barrete caindo-lhe para os olhos o fez descrever uma linha em arco e sempre descendente até que ficou em pé sobre o telhado da capela de São Luís, mas logo caiu ficando sobre as asas. Dali o tiraram sem sentimento. Desembaraçando-o do aparelho viu-se que tinha o braço esquerdo deslocado no ombro e em volta da cintura a impressão do cinto. Um dos sapatos desapareceu na trajectória. Uma das dobradiças tinha emperrado de tal forma que nem a martelo se pode dobrar. O homem voltou a si, duas horas depois, sem o menor juízo e tolo morreu dias depois."

terça-feira, 26 de julho de 2011

D. Afonso V, O Africano

Este Rei D.Afonso V, era filho de D. Duarte e neto de D.João I que iniciou a dinastia de Avis.
As governações do reino destes seus ascendentes bem como a do seu próprio filho D. João II, o Príncipe Perfeito, tem ofuscado a sua imagem. Mas, na verdade, o reinado de D. Afonso V foi fértil em acontecimentos que engrandeceram Portugal.
Os descobrimentos marítimos prosseguiram em bom ritmo tendo sido descobertas em 1452 as ilhas das Flores e do Corvo, nos Açores, e em 1456 é atingido o rio Geba na Guiné Portuguesa. Nesse mesmo ano as ilhas orientais de Cabo Verde foram descobertas por Cadamosto. Pero de Sintra chega à Serra Leoa em 1460. Nesse mesmo ano Diogo Afonso descobre as ilhas Ocidentais de Cabo Verde. Sob o comando de João de Santarém e Pero Escobar as caravelas portuguesas chegam ao Cabo das Três Pontas, aonde afluía o ouro do centro de África, cabo que por causa disso, passou a chamar-se da Mina. Fernando Pó entre 1471 e 1472 descobre a ilha que tem o seu nome e em 1472 é descoberta a ilha do Príncipe e pouco depois a de S. Tomé.
Mas, no reinado de D. Afonso V não só se prosseguiram as descobertas em bom ritmo como também se obtiveram resultados económicos positivos da exploração das terras descobertas e do comércio marítimo.
Por outro lado D. Afonso V levou a efeito ainda a conquista das praças fortes marroquinas como Alcácer Ceguer,  Arzila e Tânger. Obteve também Anafé, Larache e Tetuan.
Com Ceuta que havia sido tomada no reinado de D. João I, seu avô, tais conquistas representavam o domínio por Portugal da costa sul do estreito de Gibraltar.
No exercício do poder não foi, porém um rei autoritário como viria a ser o seu filho D. João II. Foi afável no trato, tendo também concedido muitas mercês e senhorios.
Desconcentrou e descentralizou o poder tendo ajudado a estruturar uma nobreza forte e activa.
Os descobrimentos e a inerente exploração das novas terras não trouxeram só vantagens para a Coroa, também as trouxeram para a nobreza, para a burguesia e para o semi-proletariado das cidades.
O estilo de D.Afonso V era dialogante e popular. Gostava de aparecer junto dos seus súbiditos, de ser visto a conviver com a população.
Visitava as casas nobres espalhadas por todo o reino, pondo ao corrente os seus donatários dos interesses e problemas do país. D. Afonso V, numa passagem em 1467 pelo norte de Portugal, albergou-se na casa de Fernão Coutinho em Porto Carreiro (entre Amarante e Marco de Canavezes) onde se encontrava uma jovem  antepassada de João Pereira de Almeida Beça de Vasconcelos de quem descendo. D. Afonso V já viúvo teve nela "seu ajuntamento, de sorte de que de ambos nasceu um menino a quem puseram o nome de Álvaro"
D. Álvaro, fidalgo nos tempos de D.Manuel e de D.João III, foi vereador da cidade do Porto por três vezes e dela seu guarda-mor. O referido João Pereira de Almeida Beça de Vasconcelos, meu antepassado, era décimo neto de El Rei D. Afonso V, em resultado da ligação que atrás referi.
Foi também D. Afonso V quem mandou construir a muralha de Viseu, cidade onde moro, muralha que circundava a antiga cidade e de que ainda existem alguns trechos e duas das suas sete primitivas portas: a dos Cavaleiros e a de Soar de Cima. Nesta última porta há a seguinte inscrição: "D. Afonso V mandou fazer em 1472".