segunda-feira, 30 de junho de 2014

As Cavalhadas de Vildemoinhos

No ano de 1652 Portugal sofreu um grande período de seca. A seca foi de tal maneira grave que as culturas agrícolas foram muito afectadas.
Em Viseu, como em geral em todo o país, essa calamidade prejudicou os agricultores desse tempo.
Os proprietários dos terrenos agrícolas das margens do rio Pavia, que corre junto à cidade de Viseu, ordenaram aos seus trabalhadores rurais que desviassem parte das águas do referido rio a fim de poderem regar as suas propriedades. Dessa situação resultou que o rio Pavia viu muito diminuído o seu já pequeno caudal, de tal forma diminuído que quando o rio passava em Vildemoinhos as suas águas não tinham força para moverem as mós dos moinhos lá existentes.
Vildemoinhos é uma povoação dos arredores de Viseu, onde desde longa data os seus habitantes se dedicam à moagem  do trigo e do milho e à fazedura do pão.
Nesse ano de 1652, dado o pequeno caudal do rio Pavia, as mós dos moinhos pararam, não permitindo fazer farinha e sem farinha não se pode fabricar o pão. Por isso, quando tiveram conhecimento do desvio  a montante das águas do rio os homens de Vildemoinhos levantaram-se num grande protesto e, organizando-se em grupos, reposeram de noite as águas desviadas no seu curso natural.
Essa atitude provocou uma grande contenda dos proprietários das terras contra os moleiros e padeiros de Vildemoinhos. As escaramuças foram tão grandes que as autoridades locais tiveram de intervir tendo sido entregue ao juiz da comarca o julgamento da situação existente. Com esse encaminhamento do processo os moleiros serenaram, aguardando a resolução do caso. Mas não muito confiantes na justiça dos homens logo solicitaram a protecção de São João prometendo que, no caso de vencerem a causa, todos os anos iriam à Capela de S. João da Carreira, no dia do referido Santo, montados nos seus cavalo e jumentos, prestar-lhe homenagem e demonstrar-lhe gratidão.
O meritíssimo juiz de Viseu na sua douta sentença declarou que o Rio Pavia não era pertença de ninguém. Todos poderiam utilizar as suas águas, sem as conspurcar, mas não era permitido desviá-las do seu curso natural.
Ficaram muito reconhecidos os homens e mulheres de Vildemoinhos ao Santo e todos os anos desde essa remota data, isto é desde há 362 anos, no dia de São João, representantes do moleiros e padeiros da referida povoação, montados nos seus cavalos vão até à capela da Carreira, do outro lado da cidade, agradecer ao Santo a sua ajuda no pleito que tiveram com os proprietários da terras.
Mas de Vildemoinhos até Viseu não vão sozinhos. São seguidos por um numeroso cortejo de carros alegóricos de que fazem parte alguns moleiros fabricando farinha nas suas mós, alguns padeiros fazendo pão nos seus fornos e cesteiros criando bolsas e cestos de verga.  Há também outros carros invocando assuntos actuais da vida nacional e de Viseu. O cortejo onde também são incorporadas bandas de música popular percorre as ruas centrais de Viseu antes de regressar a Vildemoinhos.E é sempre lembrado nesse cortejo o Lusitano, clube da terra, e Carlos Lopes campeão olímpico da maratona de Los Angeles em 1984 por ser um dos seus, uma vez que nasceu em Vildemoinhos.



sábado, 28 de junho de 2014

A Revolta da Maria da Fonte

Foi chamada assim a rebelião que eclodiu no Minho, em Abril de 1846, durante o governo de Costa Cabral, no tempo da Rainha D. Maria II.
Começou por ser uma pequena arruaça de mulheres que tinha por cabecilha Maria da Fonte, uma rapariga da aldeia de Fonte Arcada, pertencente ao concelho de Póvoa de Lanhoso, no Minho.
Esta arruaça teve como causa, ou pretexto, a não aceitação das leis de Costa Cabral que proibiam os enterros nas igrejas.
A primeira manifestação verificou-se em 19 de Março de 1846 quando um grupo de mulheres armadas de chuços e foices, na aldeia de Santo André de Frades, concelho de Póvoa de Lanhoso, obrigou o pároco a dar sepultura dentro da igreja ao corpo de uma mulher que ia a enterrar.
Os tumultos prosseguiram e no mês seguinte alastraram por todo o Minho e Trás-os-Montes, começando a tomar uma feição de luta de guerrilhas e de movimento miguelista  perante a intervenção  de uma força de infantaria vinda de Braga.
Costa Cabral pediu às câmaras poderes extraordinários para restabelecer a ordem. Esses poderes - suspensão de garantias, lei marcial - foram concedidos apesar da oposição de muitos deputados. Costa Cabral enviou então para o Norte, como comissário do governo, seu irmão José, ao tempo ministro da Justiça, para sufocar a rebelião.
As medidas que este tomou mais excitaram os ânimos e acenderam a revolta. Em Vila Real surge a primeira Junta Provincial revoltosa, presidida pelo morgado Mateus, logo seguida de outras espalhadas por todo Norte, pelas Beiras e até pela Estremadura. Também em Santarém se organiza uma Junta, presidida por Manuel Passos, ao mesmo tempo que o visconde de Vinhais que comandava a divisão miliciana de Trás-os-Montes se coloca ao lado dos revoltosos.
José Costa Cabral vê-se obrigado a regressar a Lisboa. Perante tão grave alastramento do movimento revolucionário o Duque da Terceira, presidente do Ministério, convocou uma reunião do gabinete a que presidiu a própria Rainha, aí declarando que não tinha força suficiente para debelar a revolta e propondo, como único meio de lhe pôr cobro, a imediata demissão do Ministério.  Perante a gravidade da situação, apesar da protecção que sempre dispensara a Costa Cabral, a Rainha concordou.
O movimento saíra pois vencedor e os irmãos Cabral, vencidos, emigraram para Espanha.
Nesse tempo era compositor residente no Teatro Nacional de S. Carlos o maestro Ângelo Frondoni. Ocupava esse lugar por concurso público tendo sido preferido entre outros concorrentes dos quais constava um nome que foi mais tarde reconhecido mundialmente: Giuseppe Verdi.
Ângelo Frondoni entusiasmado com a revolta das mulheres, encabeçada pela Maria da Fonte Arcada compôs a música vibrante do Hino da Maria da Fonte, também conhecido por Hino do Minho, hino que ultrapassou as barreiras do tempo por ser considerada uma obra prima entre as composições do seu género, sendo ainda nos tempos actuais muitas vezes executada por orquestras sinfónicas.

sábado, 10 de maio de 2014

Os trágicos amores de D. Pedro por Inês

Inês de Castro, filha do fidalgo galego D. Pedro Fernandes de Castro, foi uma das damas que acompanharam Dona Constança quando esta veio para Portugal para casar com o Infante D. Pedro, filho do nosso Rei D. Afonso IV.
Inês de Castro era detentora de uma grande beleza. Era loira, de pele muito branca e tinha um pescoço que se assemelhava a um "colo de garça".
D. Pedro, depois de casado com D. Constança, apaixonou-se por Inês.
Este Infante, que mais tarde veio a reinar em Portugal como Rei D. Pedro I, tinha um temperamento nervoso e agitado, o que por vezes o levava a ter atitudes exageradas e a decisões imponderadas.
D. Pedro, ainda em vida da Dona Constança, leva Inês para Coimbra e assenta-lhe côrte nos Paços da Rainha Santa Isabel, sua avó. E ali Pedro e Inês vivem em "maridança" e têm filhos.
Nesse Paço também se acolhem parentes e aderentes de Dona Inês de Castro, destacando-se, entre todos, seus irmãos D. Fernando e D. Álvaro. Mas além destes, de acordo com várias fontes, ali também se refugiam diversos fidalgos de Espanha, inimigos de D. Pedro, homónimo do nosso Infante, Rei de Castela e Leão.
Nesses Paços de Coimbra a língua corrente passa a dada altura a ser a castelhana e aí é criado um grupo oposicionista a D. Pedro de Castela liderado pelos irmãos de Dona Inês que tentam também juntar  à sua causa o Infante português.
O referido D. Pedro de Castela e Leão havia-se desquitado da sua esposa a Rainha Dona Branca e havia vivido em comum com a irmã de Dona Inês de nome Dona Joana de Castro, que mais tarde também engeitou.
Vivia na altura com uma amante de nome Dona Maria Padilha.
Por outro lado o referido Rei de Castela e Leão, cognominado "O Cru" afogava em sangue os descontentes do seu Reino.
Os refugiados de Castela tentavam aliciar o nosso Infante D. Pedro, no sentido de que logo que tomasse o Governo de Portugal, movesse uma guerra contra Castela a fim de derrubar o seu legítimo Rei apoderando-se do seu Reino.
E os irmãos de Dona Inês: D. Fernando de Casto e D. Álvaro de Castro eram quem mais se destacava nessa conjura. E foram principalmente esses os motivos que, em 1355, levaram os conselheiros de D. Afonso IV: Pêro Viegas Coelho (sobrinho de D. Gonçalo Viegas Magro), Diogo Lopes Pacheco e Álvaro Gonçalves Pereira a instigar o Rei no sentido de ordenar a execução de Dona Inês de Castro por temerem que a referido trama viesse a trazer diversos malefícios para o País um dos quais poderia vir a ser o afastamento do trono do Infante D. Fernando (filho de D. Pedro e de Dona Constança) sendo considerado herdeiro do trono de Portugal o filho mais velho de D. Pedro e de Dona Inês, que teriam possivelmente casado em Bragança, em segredo em 1363, quando Dona Constança já havia falecido.

O nascimento de Nuno Alvares Pereira

O apelido Pereira é de origem portuguesa e o primeiro a usá-lo foi D. Rui Gonçalves Pereira.
D. Rui Gonçalves Pereira casou duas vezes: a primeira vez com Dona Inês Sanches e a segunda com Dona Sancha Henriques Magro, filha de D. Henrique Fernandes Magro e de Dona Ouroana Reimondes de Portocarreiro. Do segundo casamento nasceram dois filhos: D. Pedro Rodrigues de Portocarreiro e Dona Froile Rodrigues que casou com D. Pedro Fernandes de Portugal.
Desta última família nasceu mais tarde D. Nuno Alvares Pereira condestável de D. João I. Era filho de D. Álvaro Gonçalves Pereira, prior do Crato, que fundou em 1356, na Flôr da Rosa, uma igreja e um mosteiro torreado, onde pretendia vir a ser sepultado ao lado dos restos mortais de seus pais, o arcebispo de Braga D. Gonçalo Pereira e Tareja Pires Vilarinho, a Salamanquina.
D. Frei Álvaro, segundo Oliveira Martins, era um homem poderosíssimo que privara com El Rei D. Afonso IV e com El Rei D. Pedro, tendo sido também uma das figuras eminentes no tempo de D. Fernando. A sua sabedoria na arte de astrologia era grande pondo um minucioso cuidado nas suas demoradas práticas com mestre Tomás, o astrólogo, traçando os vaticínios do tempo.
Oliveira Martins traça-lhe da seguinte forma o seu perfil humano: "Era um grande braço, era um grande cérebro, era um grande coração D. Frei Álvaro, e tudo isto era espontaneamente, à lei da natureza, levado pelos impulsos da vontade, pelos assomos do orgulho fidalgo, pela violência de um temperamento carnal.
Na sua longa vida, apesar dos votos proferidos antes dos dezoito anos, que foi quando o fizeram prior do Hospital,  teve muitos amores e trinta e dois filhos machos e fêmeas. O mais velho chamava-se Pedro, Pedro Alvares (filho de Álvaro) e foi quem lhe sucedeu no priorado; entre os menores estava Nuno Alvares, que nasceu no dia de S. João, em 1360, no Castelo de Sernache de Bonjardim filho de uma aia da Côrte, por nome Iria Gonçalves do Carvalhal.
Quando esta aventura pagâ teve o seu desfecho com o parto de Iria do Carvalhal no mosteiro de Bonjardim o pai D. Frei Álvaro e o astrólogo mestre Tomás apressaram-se a tirar o vaticínio do recém-nascido e o oráculo disse que o novo bastardo seria invencível. Vinha ao mundo como o Precursor; os signos afirmaram que seria um prodígio; o pai exultava e a mãe sorria."

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

El Rei D. Dinis - senhor de muitos talentos

De acordo com alguns historiadores o reinado de D. Dinis foi o mais representativo da primeira dinastia.
Foi este Rei uma personagem riquíssima pois, segundo Barrilaro Ruas, concebeu e pôs em prática uma política de grandeza nacional.
De acordo com o referido historiador os talentos de D. Dinis eram muito diversificados: excelente administrador, bom chefe militar e grande diplomata. 
No seu reinado organizou-se a Marinha de Guerra, estimulou-se a Marinha Mercante e a Agricultura, protegeram-se os Municípios, reformou-se a nobreza e foram moderados os poderes do alto clero.
Foi no seu tempo também que foi criada em Portugal a primeira Universidade. Inicialmente foi instituído em Lisboa um Estudo Geral que em 9 de Agosto de 1290 se tornou a primeira Universidade Portuguesa com a concordância do Papa Nicolau IV.
Até 1308 essa Universidade manteve-se em Lisboa, data em que o monarca decidiu transferi-la para Coimbra, cidade mais propícia ao labor intelectual. Nela eram ministrados cursos superiores de Letras, de Direito Canónico e Civil e de Medicina. 
D. Dinis foi também um homem muito culto, um dos maiores poetas do seu tempo. 
Escreveu diversas cantigas de amor, de amigo e "saborosas" cantigas de maldizer. Até à actualidade chegaram-nos da sua autoria 138 cantigas sendo 76 cantigas de amor, 52 de amigo e 10 de maldizer. 
Na formação deste nosso Rei, quando jovem, tiveram influência os seus professores Domingos Jardo e Aymeric d'Ehrard, este profundo conhecedor e provavelmente cultor da poesia provençal, tendo possivelmente encaminhado D. Dinis para a criação poética na sua juventude. 
Mas foi Lourenço Gonçalves Magro, trineto de Egas Moniz quem D. Afonso III,   seu pai, escolheu para o educar na sua infância.
Ao descendente de Egas Moniz o nosso Rei D. Dinis ficou sempre muito reconhecido pela dedicação que teve na sua educação, tendo-o recompensado com a doação de Vila de Arêga - hoje Caldas de Aregos - situada junto ao Rio Douro, nas proximidades de Resende. A respeito dessa recompensa diz Frei António Brandão o seguinte: 
"Deu-lhe D. Dinis esta vila por ter sido seu aio. E ainda que, anos adiante, fizera geral revogação das mercês que fizera nos princípios do seu reinado, conservou ,todavia, a Lourenço Gonçalves Magro o referido senhorio de Arêga, como consta duma ratificação feita em 9 de Novembro de 1286 da seguinte forma" : 
"Como eu desse a Lourenço Magro, meu aio por criança e por serviços que me fez, em doaçom a Vila de Arêga e eu revogasse todas as doações, não foi entam minha inteçom, nem hé, que revogue essa doaçom. Tudo merece um bom aio e mestre. "

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

DONA JOANA – INFANTA DE PORTUGAL E RAINHA DE CASTELA



O casamento de Henrique IV de Castela e Leão com Blanca de Navarra foi considerado nulo ao fim de três anos e meio. Blanca, durante esse período de tempo, nunca engravidou e supõe-se que, a quando do seu divórcio, continuava virgem, isto é se encontrava tal qual como no dia do seu casamento.

O documento final que os juízes eclesiásticos entregaram ao procurador de Blanca, para que o assinasse ou rejeitasse, estabelecia critérios então aceites pela Igreja Católica para sentenciar a nulidade e separação de um casal por causa da impotência do cônjuge masculino. A sentença explicava que essa impotência não tinha uma causa física mas que era resultado de um malefício. Algo que, segundo os juízes, só tinha acontecido com Blanca, uma vez que na sentença se afirmava que Henrique IV pudera ter relações com outras mulheres.

Em 1453 a Igreja Católica aceitava que a impotência por malefício era uma das causas mais claras para anular um casamento. Por isso foi anulada, sem grandes entraves, a união de Henrique de Castela com Blanca de Navarra, embora os rumores que corriam fossem de que se não conhecia ao Rei ligação alguma com qualquer outra mulher nem a existência de nenhum filho bastardo.

Por outro lado eram propaladas considerações nada edificantes sobre a índole sexual de Henrique e dos seus gostos particulares que o levava a escolher validos de baixa moral com quem dormia. Depois do divórcio foi considerada pelos conselheiros do Rei a necessidade de se encontrar uma infanta pertencente a uma das casas reais existentes com vista a poderem ser iniciados os primeiros contactos no sentido de ser negociado um segundo casamento de Henrique IV de Castela. A solução escolhida foi Joana de Portugal, filha do já falecido Rei D.Duarte e irmã do então reinante Afonso V, o Africano, solução que veio a concretizar-se em 1455. Com esse casamento seriam sanadas algumas disputas entre Portugal e Castela, além de poderem ser assinados tratados de amizade e de entreajuda no sentido dos dois reinos combaterem juntos os últimos redutos mouros existentes na Península Ibérica como Granada e Córdova. Além disso a Infanta Dona Joana era muito jovem, pois tinha apenas dezasseis anos de idade, e extraordinariamente bela e graciosa, predicados que poderiam ser estimulantes para Henrique IV motivando o interesse sexual dele por uma parceira feminina.

A ligação entre Henrique de Castela e Joana de Portugal verificou-se, como já foi referido em 1455, mas o seu casamento não foi consumado. O Rei em nada alterou os seus hábitos de índole sexual e a sua impotência prevaleceu, E à medida que os anos passavam as pressões da nobreza e do povo aumentavam continuadamente no sentido do casal real gerar um herdeiro ao trono.

Ao fim de sete anos de casados, não podendo o Rei suportar mais essas pressões, resolveu, aconselhado naturalmente pelos seus mais próximos colaboradores, consultar um físico judeu de reconhecida sabedoria. Ordenou o médico que fosse construída uma cana de ouro que a Rainha introduziu na “matriz”. Depois do Rei ser masturbado foi vertido o seu sémen nessa cana que correu para dentro das entranhas de Dona Joana. A esse respeito o Papa Pio II na sua obra intitulada Comentarii escreve textualmente :

“Disseram-me que foi fecundada sem perder a virgindade. Houve quem afirmasse que o sémen derramado na entrada tinha penetrado nos lugares mais recônditos”.

Mas o que constou foi que o esperma do Rei era aquoso e estéril não tendo produzido a fecundação da Rainha como foi previsto pelo físico judeu.

E que em vistas disso Henrique IV não teve outra alternativa senão proporcionar ao seu favorito na altura (Beltran de las Cuevas) um ajuntamento com Dona Joana no leito dela.

E foi desse ajuntamento, ao que parece, que resultou a gravidez de Joana, ao fim de tantos anos de casada e a perda definitiva da sua virgindade. Dessa gravidez nasceu uma menina que o povo sempre considerou como sendo filha de Beltran de las Cuevas tendo-a por isso cognominado de Beltraneja, embora Henrique IV por duas vezes ( em 1462 e 1470) a tivesse considerado sua legítima herdeira. Possivelmente, como compensação, em resultado das humilhações que tinha sofrido, Joana passa a ter, a partir do nascimento da filha, uma atitude provocatória e leviana.

Como era uma mulher jovem e extraordinariamente bela foi muito requestada, sendo exposta a muitas tentações. A sua vida passou a ser moralmente reprovável, envolvida como parece ter estado em diversos casos passionais. Prestando atenção às conversas amorosas de um sobrinho do arcebispo de Sevilha de nome Pedro de Castilha, o Moço, deixa-se seduzir por ele e enlear numa ardente paixão que durante algum tempo consegue manter secreta. Mas aos vinte e nove anos de idade engravida de Pedro de Castilha, o Moço, dez anos mais novo, do qual tem pelo menos dois filhos. Filhos que secretamente, são entregues ao cuidado duma tia de D.Pedro, prioresa do Mosteiro de Santo Domingo el Real de Toledo, onde foram criados e educados os dois rapazes. D.Henrique IV morre em 1474 depois de mais de 20 anos de reinado. A Rainha sobrevive-lhe, tendo lutado, em vão, pelos direitos da filha, apoiada por D.Afonso V de Portugal seu irmão.

Mas quem sucedeu a Henrique IV de Castela e Leão foi a irmã deste Rei, Isabel a Católica que casou com D.Fernando de Aragão.


Publicado por Fernando Magro

Texto redigido de acordo com as normas do antigo acordo ortográfico dec.lei 35228/45

terça-feira, 24 de julho de 2012

D.João II, o Príncipe Perfeito

D.João II foi filho de D. Afonso V, o Africano.
Em 1471 acompanhou o pai na expedição que tomou Arzila e Tânger aos Mouros e é nessa altura por ele armado cavaleiro, sendo-lhe entregue a condução dos assuntos relativos aos descobrimentos.
D.Afonso V, seu pai, segundo o cronista Rui de Pina "foy Pryncepe de muy graciosa presença, grande humanidade e doce conversação, mas foi em tanto extremo que pera Rey superior não foy muyto de louvar, porque com grande familiaridade que de sy, contra sua gravydade e estado real, muyto dava além de muytas  vezes não guardavam aquela reverência e acatamento que devyam, tomavam aynda atrevymento de lhe requerer e elle vergonha de lhe nom outorgar muytas e mayores cousas de que os mercimentos, nem onestidade nem o acrescentamento de património real requeriam, segundo todo o Rey e Prýncepe lhe obrigava". 
Em 1481 D. João II, por morte de D.Afonso V é aclamado Rei em Sintra.
Seu Pai, muito amado pelos cavaleiros e fidalgos, tinha distribuído entre eles terras e riquezas, sem se lembrar do seu filho herdeiro.
Quando tomou conta do Governo do País consta que D. João II teria declarado: "Meu Pai deixou-me Rei somente das estradas de Portugal".
Esforça-se por isso em obter a centralização do poder e entra em conflito com a nobreza, principalmente com a mais ligada à família Real. Em resultado disso alguns conspiram contra a sua vida e outros têm entendimentos secretos com os Reis de Castela no sentido de urdir um plano para contaminar a política ultramarina do soberano.
O Duque de Bragança  de quem se descobriu correspondência com sua prima, a Rainha D.Isabel de Castela, muito comprometedora, foi preso, julgado e sentenciado a ser decapitado em Évora no ano de 1488, tendo os seus principais cúmplices sido executados uns e banidos de Portugal os outros.
E no ano seguinte, explodiu uma conspiração concentrada em volta de D. Diogo, Duque de Viseu, primo co-irmão do Rei. Essa conspiração tinha em vista a captura e possível morte do Rei, seguida da coroação do Duque de Viseu.
A trama foi descoberta e D. Diogo foi morto, possivelmente pelo próprio Rei.
Depois destes acontecimentos deixou de haver problemas com os grandes fidalgos que dai em diante passaram a ser inofensivos e até obedientes ao trono.
D. João II pode então dedicar-se à grandiosa expansão marítima. Mandou erguer em S.João da Mina, no Golfo da Guiné uma fortaleza.
À volta dela logo cresceu uma vila - a mais antiga feitoria de brancos estabelecida naquela costa - aonde iam as tribos do interior transaccionar ouro com os portugueses.
Diogo Cão descobriu o grande rio Congo, chamado assim pelos nativos do Zaire.
E em 1488 Bartolomeu Dias dobrou o Cabo das Tormentas, depois chamado Cabo da Boa Esperança, grande passo para se atingir a Índia, por via marítima.
D.João II depois de dobrado o Cabo da Boa Esperança começou a preparar a grande viagem que deveria ser realizada por navios pesados - naus de alto bordo, com velas quadradas, próprias para aguentar as tempestades do Oceano meridional.
Os navios seriam todos novos, especialmente construídos pelos melhores artífices e com as melhores madeiras para a viagem por mar até à Índia.
Mas, entretanto o Rei adoece gravemente o que o levou a fazer testamento, nomeando seu primo, o Duque de Beja, D. Manuel por herdeiro, uma vez que o seu único filho de nome Afonso havia falecido quatro anos antes num acidente a cavalo, quando galopava com um jovem companheiro nas margens do rio Tejo, em Santarém.
Em 1494 resolveu viajar até ao Algarve procurando a cura dos seus males nas águas termais de Monchique.
Sentindo algumas melhoras algum tempo depois resolveu ir caçar nos bosques húmidos da Serra num dia frio e chuvoso no Outono de 1494.
Teve em resultado disso uma severa recaída. Logo que lhe foi possível montar a cavalo o Rei resolveu descer da Serra em direcção a Alvor em 24 de Outubro de 1494 aonde chegou muito enfraquecido.
Alvor nesse tempo, era uma pequena povoação de pescadores junto à baía de Lagos. Numa elevação fronteira ao mar havia um pequeno castelo.
Foi recolher-se a casa do Alcaide desse castelo e lá morreu no referido dia 24 de Outubro de 1494.
Os seus acompanhantes e o próprio Alcaide consideraram não ter Alvor condições para fazer as exéquias mortais ao Rei de Portugal dada a modéstia das instalações existentes nesse tempo no local.
Por isso resolveram levar o caixão contendo o seu corpo para a Sé de Silves.
Durante a noite, à luz das tochas, debaixo de mortalha de veludo negro, seguido pela gente de Alvor que quebrava o silêncio nocturno com os seus gemidos, foi levado para Silves e o seu cadáver depositado na Sé em frente ao altar.
Quatro anos mais tarde D. Manuel ordenou que fosse levado o seu corpo para junto dos seus antepassados no mosteiro da Batalha.