sábado, 9 de maio de 2015

O Regicídio

D. Carlos foi o penúltimo Rei da Monarquia portuguesa.
Sobre vários aspectos foi uma personalidade notável. Foi oceanógrafo e naturalista tendo estudado e catalogado especialmente aves e peixes. A sua obra Catálogo Ilustrado das Aves de Portugal é um importante trabalho de pesquisa e registo.
Foi também um artista de grande sensibilidade como revelam as suas aguarelas sobre a vida piscatória das povoações ribeirinhas do Tejo e do Sado e da baía de Cascais.
O diário náutico do iate D. Amélia, escrito pela mão de D. Carlos durante a campanha oceanográfica de 1897, é ilustrado com magníficas aguarelas do Rei.
Foi um homem culto, conhecedor de várias línguas estrangeiras, entre as quais o espanhol, o francês e o inglês.
E também foi desportista, tendo jogado ténis, praticado esgrima, além de ter sido bom velejador e caçador.
Foi um homem do seu tempo tendo relações sociais e políticas com diversos reis e chefes de estado europeus.
Segundo Mendo Castro Henriques "a sua capacidade negocial e o prestígio diplomático granjeado por Portugal foram o maior trunfo pessoal do Rei, que foi escolhido como mediador num diferendo entre o  Brasil e a Inglaterra."
D. Carlos fez diversas visitas a países estrangeiros, visitas que foram retribuídas por alguns soberanos europeus. Em 1903 vieram a Portugal Eduardo VII de Inglaterra e Afonso XIII de Espanha e no ano seguinte foi a vez da Rainha Alexandra de Inglaterra, do Imperador Guilherme da Alemanha e do Presidente francês Loubet visitarem o nosso país.
Embora os tempos vividos durante o seu reinado não possam ser considerados um período de decadência a imagem, no entanto que foi criada desses tempos é negativa. Isso deveu-se principalmente ao deficiente funcionamento das instituições políticas.
Essa e outras razões como o "ultimatum" britânico de 1980 em que a Inglaterra reivindicou a posse do território interior de África entre Angola e Moçambique, originando no país o avanço do ideal republicano.
Para tal avanço desse ideal contribuíram também a implantação da III República Francesa e as crises internas de 1890-1892 e a política ditatorial de 1906-1908.
A imprensa, por seu lado, era um veículo de propaganda e agitação que denegria a monarquia. E as sociedades secretas, sobretudo a Carbonária, contribuíam muito para o advento da revolução republicana.
O isolamento do Rei a dada altura tornou-se uma evidência. Ele próprio sintetizou esse isolamento quando afirmou que Portugal era uma monarquia sem monárquicos.
Segundo Mendo Castro Henriques "perante as rivalidades partidárias e a crise financeira, D. Carlos assumiu com firmeza a empresa de uma reforma governativa de que a ditadura seria um degrau. Os jornais dos partidos monárquicos falavam em abdicação, vaticinavam uma revolução ou um crime".
E o crime aconteceu no primeiro dia de Fevereiro de 1908 sendo os seus principais autores dois anarquistas, filiados em organizações secretas ligadas aos republicanos: Manuel dos Reis da Silva Buiça e Alfredo Costa. Desse assassinato foram vítimas o Rei D. Carlos e o seu filho primogénito o Príncipe Real D. Luís Filipe quando a família real regressava a Lisboa vinda de Vila Viçosa.
Com a descrição desse acontecimento o Jornal Diário de Notícias de 2 de Fevereiro de 1908 preenche a quase totalidade da sua primeira página, acontecimento que em seguida parcialmente transcrevo:
"El Rey e a família real deviam chegar a Lisboa às 4 horas e um quarto da tarde, mas o comboio expresso teve um atraso assim como o vapor em que a família real vez a travessia do Barreiro para o Terreiro do Paço que só atracou á ponte do Sul e Sueste depois das 5 horas.
Ali aguardavam a chegada membros do Governo, dignitários da Côrte e alguns oficiais. El Rey demorou-se a conversar durante alguns momentos com o presidente do Conselho e outros ministros.
Em seguida saiu da estação dirigindo-se para as carruagens que aguardavam os viajantes em frente ao torreão do Ministério da Guerra.
Na primeira carruagem tomaram lugar o Rei, a Rainha, o Príncipe Real e o Infante D. Manuel. A carruagem era descoberta e o cortejo pôs-se em marcha em direcção ao Paço, indo a primeira carruagem muito distanciada da segunda.
Ao passar em frente do Ministério da Fazenda um homem de barba loura, cuja identidade é ainda desconhecida, tirou debaixo do casaco uma carabina desfechando uma tiro sobre o Rei.
D. Carlos atingido pela bala tombou sobre a direita. A Rainha quis amparar o marido e entretanto outros homens dispararam novos tiros em direcção á carruagem real dois dos quais feriram o Príncipe Real: um na cabeça e outro no pescoço.
A Rainha levantou-se na carruagem presa de extraordinária agitação, a gritar por socorro. O autor do atentado contra o Rei e mais dois homens, que consta terem sido aqueles cujos tiros atingiram o Príncipe Real, foram mortos, sendo o cadáver do primeiro conduzido para a esquadra da Rua dos Capelistas e os dos outros para o vestíbulo da Câmara Municipal.
A carruagem seguiu imediatamente a trote para o Arsenal da Marinha e quando ali chegou El Rey já tinha falecido e o Príncipe morreu naquele estabelecimento ficando o seu cadáver junto do de seu pai.  O Infante D. Manuel foi também atingido por uma das balas recebendo um leve ferimento em um dos braços. Ficaram também feridos Francisco Figueira, oficial às ordens de El Rey, numa perna, um soldado do ultramar e um trintanário... O acontecimento produziu extraordinário sensação em toda a cidade. Quase todos os estabelecimentos encerraram as portas e os espectáculos teatrais foram suspensos".
Desta forma aconteceu a  morte de El Rey D. Carlos e de seu filho herdeiro, o Príncipe Real D. Luís Filipe, acontecimento trágico que prenunciou o fim da monarquia em Portugal.
O referido regicídio deu, mais tarde, origem a um julgamento que teve por escrivão Abílio da Cruz Pereira Magro, primo direito do meu avô paterno.

A Restauração do Reino de Portugal

Com o desaparecimento em 1578 de D. Sebastião, aos 21 anos, na batalha de Alcácer-Quibir, no Norte de África, foi criada uma grave crise dinástica uma vez que o referido Rei não deixou herdeiros directos: nem filhos, nem irmãos, nem tios. 
Sendo neto do Rei D.João III de quem foi herdeiro uma vez que seu pai já tinha falecido D.Sebastião, quando desapareceu só tinha como familiares mais próximos os seus tios-avós e os filhos deles.
O Cardeal D.Henrique (irmão de D.João III e tio-avô de D.Sebastiâo) que na menoridade deste já tinha sido Regente do Reino, fez-se aclamar Rei de Portugal no referido ano de 1578, para evitar as pretenções espanholas e convocou nesse mesmo ano Cortes em Lisboa, que se realizaram no ano seguinte em 1579. 
Cita nessas Cortes os possíveis pretendentes á sua sucessão:
- Filipe II de Espanha, filho de sua irmã D. Isabel de Portugal casada com Carlos I de Castela.
- D. Catarina, filha de seu irmão D.Duarte, já falecido na altura, casada com o 6º Duque de Bragança. 
- D. António Prior do Crato, filho ilegítimo do seu irmão D. Luís, também já falecido. 
- Manuel Felisberto de Sabóia, filho de sua irmã D. Beatriz casada com o Duque Carlos III de Sabóia.
- Rainúncio filho de D. Maria, Duquesa de Parma, que por sua vez era filha de D. Duarte, irmão já falecido do Cardeal-Rei, como já foi referido anteriormente.

D. Henrique nomeia uma comissão de peritos para estudar o problema da sua sucessão.
Em 15 de Janeiro de 1580, reúne as Cortes em Almeirim e D. Henrique por intermédio do Bispo de Miranda, declara como principais candidatos ao trono de Portugal: Filipe II de Espanha e D. Catarina de Bragança seus sobrinhos. E nomeia cinco governadores para regerem o Reino após a sua morte e para proclamarem o nome do futuro Rei.
Já muito idoso, o Cardeal D. Henrique morre em Almeirim a 31 de Janeiro de 1580. 
Os governadores por ele nomeados declaram, por maioria, Filipe II de Espanha Rei de Portugal. Muito embora tenha havido da parte de D. António Prior do Crato alguma resistência a esse veredicto, o certo é que as tropas de D. António são derrotadas pelos espanhóis, comandados pelo Duque de Alba, às portas de Lisboa perdendo também a batalha de Alcântara em 5 de Agosto de 1580. Em resultado disso Filipe II de Espanha acaba por ser aclamado Rei de Portugal nas Cortes de Tomar, por ele convocadas e reunidas sob ocupação militar em Abril de 1581 e entra solenemente em Lisboa em 29 de Junho do mesmo ano. 
Portugal perdeu deste modo a sua independência passando a ser governado por Espanha. 
Ninguém contudo, pertencendo à nobreza ou ao povo, se conformou com tal situação. Aceitaram-na nos primeiros anos, porque o país, depois do desastre de Alcácer-Quibir, não dispunha de forças militares para enfrentar a Espanha e porque de acordo com Augusto Ferreira do Amaral: "Filipe II definira o seu papel como o de soberano comum de uma mera união pessoal em que Portugal, com as suas dependências mantinha os seus foros de Reino autónomo. Mas cedo se desenganaram os portugueses. À medida que o tempo foi avançando, reduziram-se os privilégios do Reino face ao conjunto ibérico. Com Filipe III (Filipe IV de Espanha) e o seu poderoso ministro o Conde-Duque de Olivares acentuaram-se decisivamente os sintomas de dependência da Nação Portuguesa, do mesmo passo que se multiplicaram os gravames sobre a nobreza e os povos. Aquela era obrigada a servir em causas que pouco interessavam a Portugal, estes eram forçados a pagar cada dia mais tributos, tudo para ser consumido em guerras que a Espanha travava contra vários inimigos que tinham sido aliados de Portugal. Aliás a pressão final alastrava também aos privilegiados.".
O descontentamento dos portugueses, passados mais de cinquenta anos de domínio espanhol era muito grande. Porém havia uma enorme esperança em D. João 8º Duque de Bragança puder vir a emergir como pretendente natural ao trono. 
Juridicamente a causa é defendida por se considerar que em 1580 teria sido usurpada a sucessão real a D. Catarina, avó do actual Duque de Bragança, após a morte do Cardeal-Rei D. Henrique.
E porque se considerava que Filipe III perdera a legitimidade por não governar em prol do bem comum pelo que o Reino representado pelos Três Estados reunidos nas Cortes de Lisboa de 1641 assistia ao direito de o depor.
O próprio 7º Duque de Bragança D. Teodósio, filho de D. Catarina tinha incutido, desde a infância, no seu herdeiro D. João aversão aos espanhóis, representando-os como usurpadores de uma Coroa que lhe pertencia de acordo com o referido Augusto Ferreira do Amaral. 
D. João segundo alguns autores, durante a sua vida sempre teria alimentado a esperança de poder vir a ter uma acção determinante na restauração de independência de Portugal. Mas o 8º Duque de Bragança sentindo-se vigiado teve a preocupação de não dar a mínima desconfiança a Filipe III. Mesmo assim Castela tentou afastá-lo de Portugal, nomeando-o Governador de Milão, honra de que se escusou com habilidade.
E mais tarde, em 1639, foi nomeado Governador de Armas do Reino de Portugal para que o Duque de Bragança se sentisse obrigado a ser fiel ao poder de Madrid.
Tomando uma atitude ambígua teria respondido a alguns que tentaram incitá-lo á revolta desta maneira:"Vejo efectivamente a decadência da coisa pública, o perigo da Pátria, e desde a juventude que me julgo nascido não para mim mas para a Lusitania. Entendo porém que o tempo oportuno para o remédio ainda não chegou" (António de Sousa Macedo, Lusitana Liberata).
Da atitude de D. João resultou que alguns nobres se reuniram diversas vezes preparando uma intentona. Até que, em Junho de 1640, tendo rebentado uma séria revolta na Catalunha contra o domínio castelhano D. Filipe III ordenou então uma geral mobilização da nobreza portuguesa para combater os revoltosos.
O próprio Duque recebeu ordem para se juntar a Filipe III nessa guerra. "Esta ordem geral para a jornada da Catalunha foy causa de que alguns fidalgos se deliberassem romper todas as dificuldades e sair com o intento." (Manifesto do Reyno de Portugal atribuído a António Pais Viegas).
Quando foi nomeado Governador das Armas do Reino, o Duque instala-se em Almada onde recebe a visita de diversos membros da nobreza sugerindo-lhe alguns que se promova o necessário para a restauração de independência. Empreendimento que mais urgente se tornou quando numerosos nobres e fidalgos são convocados a Madrid, em Junho de 1640, para receberem ordens no sentido de organizarem levas de soldados portuguesa para lutarem na Catalunha. O próprio Duque de Bragança recebe de Filipe III a missão de o acompanhar no combate aos rebeldes como já foi referido atrás.
Perante isto em 12 de Outubro de 1640 um grupo de fidalgos de que fazia parte D. António Pereira, tio do Conde da Feira (descendente dos Álvares Pereira e dos Pereira Magro) convida o agente do Duque, em Lisboa, João Pinto Ribeiro para uma reunião onde resolvem que Pedro Mendonça vá a Vila Viçosa solicitar ao Duque a sua adesão á conjura. O Duque aceitou em princípio o convite, mas indicou que a sua resposta definitiva seria dada posteriormente depois de algumas consultas que pretendia fazer a pessoas próximas e da sua confiança.
Entre essas pessoas aconselhou-se com o Marquês Ferreira e o Conde de Vimioso, seus parentes, o seu secretário António Pais Viegas e a sua esposa Dona Luísa de Gusmão. Como todos fossem favoráveis à decisão de entrar na conjura João Pinto Ribeiro recebe do Duque ordem para vir a Vila Viçosa em 10 de Novembro de 1640. E nesse encontro fica assente que o Duque estava determinado em aceitar a sua aclamação como Rei de Portugal.
D. João entrega duas cartas credenciais: uma para D. Miguel de Almeida (o mais velho dos conspiradores) e outra para Pedro Mendonça.
Em 21 de Novembro do referido ano os conjurados tomam conhecimento da decisão do Duque de Bragança e do conteúdo das referidas cartas credenciais.
Em 26 do mesmo mês de Novembro João Pinto Ribeiro manda notícia ao Duque de que a revolta ficará aprazada para 1 de Dezembro. No primeiro dia de Dezembro de 1640, efectivamente, deu-se a conspiração que foi um êxito completo: os conjurados saíram á hora combinada das susa carruagens e dirigem-se ao Paço da Ribeira onde neutralizaram a guarda alemã da Duquesa de Mântua, vice-rainha de Portugal, sendo morto o Secretário de Estado Miguel de Vasconcelos que é atirado pela janela. O mais velho dos conjurados, D. Miguel de Almeida, dirige-se à janela do Paço e proclama:
Liberdade ! Liberdade ! Viva El Rey D. João IV !
D. João IV informado do sucesso, chegou de Vila Viçosa a 6 de Dezembro e é aclamado Rei de Portugal. A 15 de Dezembro de 1640 jura as leis fundamentais do país.
Portugal libertou-se, nessa altura, do jugo de Castela. A Catalunha não o conseguiu nessa época e ainda hoje luta pela sua independência relativamente à Espanha. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

A Monarquia do Norte

Paiva Couceiro foi dos poucos que defenderam a monarquia em quatro e cinco de Outubro de 1910. Comandou as baterias de artilharia fixa de Queluz que bombardearam a rotunda do Marquês de Pombal onde estavam acampados os revolucionários republicanos.
Implantada a República pediu a demissão do exército e iniciou a sua vida política convertendo-se em paladino da restauração.
Henrique de Paiva Couceiro havia sido oficial de artilharia e herói nas campanhas do Ultramar. Por D. Carlos foi agraciado Cavaleiro da Torre e Espada em dezoito de Dezembro de 1890 e oficial da mesma ordem em vinte e nove de Maio de 1891. Tomou parte em todas as grandes jornadas da campanha de 1895 em Angola e teve grande influência na liquidação da revolta das chamadas Terras da Coroa.
Recebe, por isso, diversas honrosas distinções. As Cortes, em Abril de 1896, proclamaram-no mesmo benemérito da Pátria. E é nomeado Governador-Geral de Angola, por expressa indicação do Rei D. Carlos.
Nessa função desenvolve uma obra intensa de ocupação e organização no Cuamato, nos Dembos, e em Ambriz no Zaire, tendo a sua governação sido mais tarde muito elogiada pelo general Norton de Matos.
Inconformado com a instauração da República em Portugal participou entre 1911 e 1912 em diversas tentativas no sentido de restaurar a monarquia, tentativas que não resultaram. E em dezanove de Janeiro de  1919, logo a seguir ao assassinato de Sidónio Pais, consegue mesmo proclamar no Porto a Monarquia do Norte sendo o presidente da sua Junta Governativa.
A revolução eclodiu em Santarém a doze de Janeiro do referido ano, alastrando-se ao norte do Douro e em parte da Beira Alta.
Dessa campanha monárquica fez parte João do Carmo Magro primo direito do meu avô.
Gorado o restabelecimento da monarquia e reforçado o regime republicano, Paiva Couceiro tenta manter-se por algum tempo à margem da vida política. Mas o seu inconformismo acabou por resultar no seu exílio nas ilhas Canárias já no Governo do Estado Novo.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

As Cavalhadas de Vildemoinhos

No ano de 1652 Portugal sofreu um grande período de seca. A seca foi de tal maneira grave que as culturas agrícolas foram muito afectadas.
Em Viseu, como em geral em todo o país, essa calamidade prejudicou os agricultores desse tempo.
Os proprietários dos terrenos agrícolas das margens do rio Pavia, que corre junto à cidade de Viseu, ordenaram aos seus trabalhadores rurais que desviassem parte das águas do referido rio a fim de poderem regar as suas propriedades. Dessa situação resultou que o rio Pavia viu muito diminuído o seu já pequeno caudal, de tal forma diminuído que quando o rio passava em Vildemoinhos as suas águas não tinham força para moverem as mós dos moinhos lá existentes.
Vildemoinhos é uma povoação dos arredores de Viseu, onde desde longa data os seus habitantes se dedicam à moagem  do trigo e do milho e à fazedura do pão.
Nesse ano de 1652, dado o pequeno caudal do rio Pavia, as mós dos moinhos pararam, não permitindo fazer farinha e sem farinha não se pode fabricar o pão. Por isso, quando tiveram conhecimento do desvio  a montante das águas do rio os homens de Vildemoinhos levantaram-se num grande protesto e, organizando-se em grupos, reposeram de noite as águas desviadas no seu curso natural.
Essa atitude provocou uma grande contenda dos proprietários das terras contra os moleiros e padeiros de Vildemoinhos. As escaramuças foram tão grandes que as autoridades locais tiveram de intervir tendo sido entregue ao juiz da comarca o julgamento da situação existente. Com esse encaminhamento do processo os moleiros serenaram, aguardando a resolução do caso. Mas não muito confiantes na justiça dos homens logo solicitaram a protecção de São João prometendo que, no caso de vencerem a causa, todos os anos iriam à Capela de S. João da Carreira, no dia do referido Santo, montados nos seus cavalo e jumentos, prestar-lhe homenagem e demonstrar-lhe gratidão.
O meritíssimo juiz de Viseu na sua douta sentença declarou que o Rio Pavia não era pertença de ninguém. Todos poderiam utilizar as suas águas, sem as conspurcar, mas não era permitido desviá-las do seu curso natural.
Ficaram muito reconhecidos os homens e mulheres de Vildemoinhos ao Santo e todos os anos desde essa remota data, isto é desde há 362 anos, no dia de São João, representantes do moleiros e padeiros da referida povoação, montados nos seus cavalos vão até à capela da Carreira, do outro lado da cidade, agradecer ao Santo a sua ajuda no pleito que tiveram com os proprietários da terras.
Mas de Vildemoinhos até Viseu não vão sozinhos. São seguidos por um numeroso cortejo de carros alegóricos de que fazem parte alguns moleiros fabricando farinha nas suas mós, alguns padeiros fazendo pão nos seus fornos e cesteiros criando bolsas e cestos de verga.  Há também outros carros invocando assuntos actuais da vida nacional e de Viseu. O cortejo onde também são incorporadas bandas de música popular percorre as ruas centrais de Viseu antes de regressar a Vildemoinhos.E é sempre lembrado nesse cortejo o Lusitano, clube da terra, e Carlos Lopes campeão olímpico da maratona de Los Angeles em 1984 por ser um dos seus, uma vez que nasceu em Vildemoinhos.



sábado, 28 de junho de 2014

A Revolta da Maria da Fonte

Foi chamada assim a rebelião que eclodiu no Minho, em Abril de 1846, durante o governo de Costa Cabral, no tempo da Rainha D. Maria II.
Começou por ser uma pequena arruaça de mulheres que tinha por cabecilha Maria da Fonte, uma rapariga da aldeia de Fonte Arcada, pertencente ao concelho de Póvoa de Lanhoso, no Minho.
Esta arruaça teve como causa, ou pretexto, a não aceitação das leis de Costa Cabral que proibiam os enterros nas igrejas.
A primeira manifestação verificou-se em 19 de Março de 1846 quando um grupo de mulheres armadas de chuços e foices, na aldeia de Santo André de Frades, concelho de Póvoa de Lanhoso, obrigou o pároco a dar sepultura dentro da igreja ao corpo de uma mulher que ia a enterrar.
Os tumultos prosseguiram e no mês seguinte alastraram por todo o Minho e Trás-os-Montes, começando a tomar uma feição de luta de guerrilhas e de movimento miguelista  perante a intervenção  de uma força de infantaria vinda de Braga.
Costa Cabral pediu às câmaras poderes extraordinários para restabelecer a ordem. Esses poderes - suspensão de garantias, lei marcial - foram concedidos apesar da oposição de muitos deputados. Costa Cabral enviou então para o Norte, como comissário do governo, seu irmão José, ao tempo ministro da Justiça, para sufocar a rebelião.
As medidas que este tomou mais excitaram os ânimos e acenderam a revolta. Em Vila Real surge a primeira Junta Provincial revoltosa, presidida pelo morgado Mateus, logo seguida de outras espalhadas por todo Norte, pelas Beiras e até pela Estremadura. Também em Santarém se organiza uma Junta, presidida por Manuel Passos, ao mesmo tempo que o visconde de Vinhais que comandava a divisão miliciana de Trás-os-Montes se coloca ao lado dos revoltosos.
José Costa Cabral vê-se obrigado a regressar a Lisboa. Perante tão grave alastramento do movimento revolucionário o Duque da Terceira, presidente do Ministério, convocou uma reunião do gabinete a que presidiu a própria Rainha, aí declarando que não tinha força suficiente para debelar a revolta e propondo, como único meio de lhe pôr cobro, a imediata demissão do Ministério.  Perante a gravidade da situação, apesar da protecção que sempre dispensara a Costa Cabral, a Rainha concordou.
O movimento saíra pois vencedor e os irmãos Cabral, vencidos, emigraram para Espanha.
Nesse tempo era compositor residente no Teatro Nacional de S. Carlos o maestro Ângelo Frondoni. Ocupava esse lugar por concurso público tendo sido preferido entre outros concorrentes dos quais constava um nome que foi mais tarde reconhecido mundialmente: Giuseppe Verdi.
Ângelo Frondoni entusiasmado com a revolta das mulheres, encabeçada pela Maria da Fonte Arcada compôs a música vibrante do Hino da Maria da Fonte, também conhecido por Hino do Minho, hino que ultrapassou as barreiras do tempo por ser considerada uma obra prima entre as composições do seu género, sendo ainda nos tempos actuais muitas vezes executada por orquestras sinfónicas.

sábado, 10 de maio de 2014

Os trágicos amores de D. Pedro por Inês

Inês de Castro, filha do fidalgo galego D. Pedro Fernandes de Castro, foi uma das damas que acompanharam Dona Constança quando esta veio para Portugal para casar com o Infante D. Pedro, filho do nosso Rei D. Afonso IV.
Inês de Castro era detentora de uma grande beleza. Era loira, de pele muito branca e tinha um pescoço que se assemelhava a um "colo de garça".
D. Pedro, depois de casado com D. Constança, apaixonou-se por Inês.
Este Infante, que mais tarde veio a reinar em Portugal como Rei D. Pedro I, tinha um temperamento nervoso e agitado, o que por vezes o levava a ter atitudes exageradas e a decisões imponderadas.
D. Pedro, ainda em vida da Dona Constança, leva Inês para Coimbra e assenta-lhe côrte nos Paços da Rainha Santa Isabel, sua avó. E ali Pedro e Inês vivem em "maridança" e têm filhos.
Nesse Paço também se acolhem parentes e aderentes de Dona Inês de Castro, destacando-se, entre todos, seus irmãos D. Fernando e D. Álvaro. Mas além destes, de acordo com várias fontes, ali também se refugiam diversos fidalgos de Espanha, inimigos de D. Pedro, homónimo do nosso Infante, Rei de Castela e Leão.
Nesses Paços de Coimbra a língua corrente passa a dada altura a ser a castelhana e aí é criado um grupo oposicionista a D. Pedro de Castela liderado pelos irmãos de Dona Inês que tentam também juntar  à sua causa o Infante português.
O referido D. Pedro de Castela e Leão havia-se desquitado da sua esposa a Rainha Dona Branca e havia vivido em comum com a irmã de Dona Inês de nome Dona Joana de Castro, que mais tarde também engeitou.
Vivia na altura com uma amante de nome Dona Maria Padilha.
Por outro lado o referido Rei de Castela e Leão, cognominado "O Cru" afogava em sangue os descontentes do seu Reino.
Os refugiados de Castela tentavam aliciar o nosso Infante D. Pedro, no sentido de que logo que tomasse o Governo de Portugal, movesse uma guerra contra Castela a fim de derrubar o seu legítimo Rei apoderando-se do seu Reino.
E os irmãos de Dona Inês: D. Fernando de Casto e D. Álvaro de Castro eram quem mais se destacava nessa conjura. E foram principalmente esses os motivos que, em 1355, levaram os conselheiros de D. Afonso IV: Pêro Viegas Coelho (sobrinho de D. Gonçalo Viegas Magro), Diogo Lopes Pacheco e Álvaro Gonçalves Pereira a instigar o Rei no sentido de ordenar a execução de Dona Inês de Castro por temerem que a referido trama viesse a trazer diversos malefícios para o País um dos quais poderia vir a ser o afastamento do trono do Infante D. Fernando (filho de D. Pedro e de Dona Constança) sendo considerado herdeiro do trono de Portugal o filho mais velho de D. Pedro e de Dona Inês, que teriam possivelmente casado em Bragança, em segredo em 1363, quando Dona Constança já havia falecido.

O nascimento de Nuno Alvares Pereira

O apelido Pereira é de origem portuguesa e o primeiro a usá-lo foi D. Rui Gonçalves Pereira.
D. Rui Gonçalves Pereira casou duas vezes: a primeira vez com Dona Inês Sanches e a segunda com Dona Sancha Henriques Magro, filha de D. Henrique Fernandes Magro e de Dona Ouroana Reimondes de Portocarreiro. Do segundo casamento nasceram dois filhos: D. Pedro Rodrigues de Portocarreiro e Dona Froile Rodrigues que casou com D. Pedro Fernandes de Portugal.
Desta última família nasceu mais tarde D. Nuno Alvares Pereira condestável de D. João I. Era filho de D. Álvaro Gonçalves Pereira, prior do Crato, que fundou em 1356, na Flôr da Rosa, uma igreja e um mosteiro torreado, onde pretendia vir a ser sepultado ao lado dos restos mortais de seus pais, o arcebispo de Braga D. Gonçalo Pereira e Tareja Pires Vilarinho, a Salamanquina.
D. Frei Álvaro, segundo Oliveira Martins, era um homem poderosíssimo que privara com El Rei D. Afonso IV e com El Rei D. Pedro, tendo sido também uma das figuras eminentes no tempo de D. Fernando. A sua sabedoria na arte de astrologia era grande pondo um minucioso cuidado nas suas demoradas práticas com mestre Tomás, o astrólogo, traçando os vaticínios do tempo.
Oliveira Martins traça-lhe da seguinte forma o seu perfil humano: "Era um grande braço, era um grande cérebro, era um grande coração D. Frei Álvaro, e tudo isto era espontaneamente, à lei da natureza, levado pelos impulsos da vontade, pelos assomos do orgulho fidalgo, pela violência de um temperamento carnal.
Na sua longa vida, apesar dos votos proferidos antes dos dezoito anos, que foi quando o fizeram prior do Hospital,  teve muitos amores e trinta e dois filhos machos e fêmeas. O mais velho chamava-se Pedro, Pedro Alvares (filho de Álvaro) e foi quem lhe sucedeu no priorado; entre os menores estava Nuno Alvares, que nasceu no dia de S. João, em 1360, no Castelo de Sernache de Bonjardim filho de uma aia da Côrte, por nome Iria Gonçalves do Carvalhal.
Quando esta aventura pagâ teve o seu desfecho com o parto de Iria do Carvalhal no mosteiro de Bonjardim o pai D. Frei Álvaro e o astrólogo mestre Tomás apressaram-se a tirar o vaticínio do recém-nascido e o oráculo disse que o novo bastardo seria invencível. Vinha ao mundo como o Precursor; os signos afirmaram que seria um prodígio; o pai exultava e a mãe sorria."